Ensaio "O que é ser Português"

Prêmio Literário "O que é ser Português?"

A Sociedade Histórica da Independência de Portugal (SHIP) organizou no âmbito dos 380 anos da Restauração da Independência, um Prémio Literário com o tema “O Que é Ser Português?”.

Visando reforçar vínculos de pertença à identidade, língua e cultura portuguesas, bem como estimular a criatividade intelectual e artística dos portugueses e luso descendentes, residentes em Portugal ou no estrangeiro.

Brasão da Sociedade Histórica da Independência de Portugal

ENSAIO

“O que é ser português?”

Prêmio Literário

Sociedade Histórica da Independência de Portugal (SHIP)

Autor José Antonio Ribeiro Neto

Introdução

Meu nome é José Antonio. Sou filho e neto de portugueses.

Nasci e cresci no Brasil na quinta do meu avô paterno onde residia minha família portuguesa.

Depois fomos morar na cidade com meus avós maternos em uma comunidade numerosa.

Corria em nós o sangue português, da união, cooperação e identidade cultural.

Portugueses são guerreiros, amantes da vida, trabalhadores, lutadores para dar aos filhos o melhor.

É preciso vivência diária com a família, avós, pais, irmãos, tios e primos para ser Português.

No saborear da comida, roda de conversas, piadas dos tios, nos natais rindo das histórias contadas.

No viajar a Portugal e se emocionar, sentir no coração e alma a descendência portuguesa.
Ser português é algo que se sente ao longo do tempo.
Que está no coração, alma e espírito.
Nas origens, aprendizados vindos dos avós, pais e tios.
Nos ensinamentos traduzidos pela cultura portuguesa e na forma de ver a vida.

Ser português é uma soma de vidas, conhecimentos, ensinamentos passados de pais para filhos, de avós para netos, ao longo das gerações que transformam vidas na busca de identidade.

Resumi o que é ser Português nos textos a seguir:

1 - Ser português é aprender com os avós e família

2 - Ser português é expressar a sua alma em histórias e frases

3 - Ser português é ter autocrítica, resiliência e coragem

4 - Ser português é saber despertar, colaborar, orientar e reinventar-se

5 - Ser português é estar presente na vida dos filhos e das novas gerações

1 - Ser Português é aprender com os avós e família

Meus avós portugueses tiveram impacto profundo em minha formação.

Cresci ouvindo conselhos, histórias e frases moldadas a partir de suas experiências de vida.

Eles enfrentaram a gripe Espanhola no século passado, primeira e segunda guerras, crises globais como a quebra da bolsa de valores de Nova York em 1929, falta de empregos, dificuldades para alimentar a família, imigração para outro país.

Apesar da luta desigual mantiveram a família unida preparando terreno para futuras gerações.

Minha avó faleceu antes do meu nascimento.

Mas sua foto na parede me acompanha até hoje como se a tivesse conhecido e convivido com ela a vida toda.


Meu avô trazia de Portugal o gosto pela literatura, cultura e conhecimento do mundo.

Militar em Portugal se tornou agricultor no Brasil. Era respeitoso com parceiros, meeiros, caseiros e vizinhos.

Trazia em si o amor por Portugal e Figueiró dos Vinhos, freguesia portuguesa do distrito de Leiria província Beira Litoral.

Com ele aprendi sobre a terra, cultivar, tratar os animais, respeitar tempo e clima, ter paciência para ver a plantação crescer.


Na frente da casa ele mantinha uma parreira de uvas. Suas podas eram orgulhosamente dadas aos amigos.

Ele conversava com ela todos os dias para matar as saudades da terra além-mar e da minha avó que partiu muito cedo.

Suas histórias de Portugal eram contadas à noite, na varanda da casa, fumando cigarro de palha, olhando divertidamente para o céu estrelado da via Láctea que banhava suavemente de luz a nossa quinta.

Me lembro do seu andar lento pelas trilhas da quinta.

Um rito ao pensar, ao relacionamento com a natureza, da vida portuguesa de onde viera.

A quinta estava localizada na cidade de Duartina SP de onde podíamos ver o sol nascer e se por.

Acompanhar a lua em suas fases, a via Láctea estupenda nos meses de inverno, chuva de meteoros, chuva abundante de água banhando plantações, pastos e animais.

Aprendendo a ser português com meu avô

Meu avô paterno era muito culto, educado e gentil.

Aprendi com ele a ser agricultor e um bom leitor.

Ele era fã de Eça de Queiroz e além dos livros pessoais que havia trazido de Portugal, assinava a revista Seleções da Reader’s Digest traduzida para o português.

Sentado no chão de madeira de sua casa eu costumava ler os livros e folhear as revistas.

Já terminaste de ler “O Mandarim”? dizia ele me olhando quando por ali passava.

A quinta era preenchidas com a presença de amigos de infância, primos, tios, tias, meeiros, caseiros e vizinhos.

Comunidade de forte sotaque que mergulhava nos costumes, comidas, frases, piadas, sorrisos, e músicas portuguesas.

Caça, jogos de bocha, montar a cavalo, balanços no cedro, futebol, buscar água na mina, ajudar na limpeza da casa, preparação das festas dos santos e trabalho duro compensavam o aprendizado.

Do lado da parreira tínhamos um cedro enorme, com um balanço de cabo de aço, duas mangueiras fornecendo sombra ao campo de bocha e um coqueiro alto que atraia pássaros.

Na frente da casa havia um gramado que servia de estacionamento, barracas de festas, campo de futebol, montaria de animais e disputas de corridas em uma trilha que conduzia até a tulha perseguidos por cachorros que vibravam nas idas e vindas.

Tia Leonor filha mais nova, testemunhava tudo, cuidando de nós com imenso carinho, cozinhando pratos portugueses, puxando nossa orelha quando preciso, nos alegrando com suas atitudes positivas e carismáticas.

“Crescer convivendo com meu avô paterno, me mostrou a importância de ser português, da cultura portuguesa, da calma e paciência, do viver e compartilhar.”

Minha avó Maria, avô José Antonio e os filhos Elvira e Manoel

Meu avô José Antonio ao centro com os irmãos Augusto e Serafim

Aprendendo a ser português com meus avós maternos

Eles vieram da freguesia de Penhas Juntas, concelho de Vinhais, distrito de Bragança, província de Trás-os-Montes e Douro, norte de Portugal.

Meu avô José Elias era a calma em pessoa, tranquilo e sossegado.

Era estrategista e empreendedor. Tinha um empório e um hotel.

Um negócio alimentando o outro, ideias que aprendi para o futuro.

Ele me dava muita atenção. Depois das aulas eu passava no empório para comer bolachas e doces portugueses. Naquela época vinham em latas e eram vendidos por quilo.

Me contava histórias e façanhas de quando morava em Portugal, discorrendo sobre guerras na Europa, sua ida para trabalhar na França, encontro com a minha avó Leopoldina que desafiou o pai para se casar com ele, na época um ato raro.

Falava sobre terras, suas casas pequenas de pedras, poucos espaços para plantar no solo pedregoso, inverno rigoroso e a vida difícil que tinham.

Sempre o considerei um romântico pois percebia nele um encanto pela vida, pelos filhos e pela minha avó Leopoldina, uma portuguesa baixinha de personalidade forte e espírito vencedor que ele nem arriscava contrariar.

Aprendendo a ser português com minha avó Leopoldina

Ela nos levava à igreja todos os domingos, íamos em fila indiana com irmãs e primos, no que sempre obedeci seguindo as regras.

Quando ela vinha em direção da minha casa, eu a observava e sentia um imenso orgulho, pois demostrava estar decidida a chegar e resolver os problemas quaisquer que fossem.

Aos domingos ela esperava os filhos e netos para o almoço.

Lá estávamos nós em uma grande mesa, a comer sardinhas, bacalhau com batatas, cebolas, pimentão e tomates.

E meu avô a servir um bom vinho português de garrafão.

Ninguém reclamava da felicidade de ser português.

“Ser Português, é ter convivido com sua família, aprendido com ela as dificuldades da vida. Manter estas lembranças para desenvolvê-las com seus filhos e netos, chama viva da cultura e etnia portuguesas”.

Sentados: Meu avô José Elias e minha avó Leopoldina.
De pé ao fundo meus tios: Cândida, Lino e minha mãe Narcisa.

De pé na frente os meus tios: José, João, Félix, Wilson e Milton

2 - Ser Português é expressar a sua alma em histórias e frases

Como neto e filho de portugueses cresci ouvindo histórias dos meus avós.

Eram histórias de uma sinceridade ímpar. Histórias das guerras, viagens pela Europa, imigração para o Brasil, escolha das esposas, convicções religiosas, políticas e esportivas, mágoas e alegrias.

Histórias como as da minha avó Leopoldina, que nos levava à missa aos domingos, quando se confessava repetindo sempre o mesmo pecado de que havia pego um dinheirinho do meu avô.

Ela recebia sempre a absolvição do padre que cansado da mesma história um dia sentenciou que “pegar dinheirinho escondidinho do marido não era mais pecado”.

Meus avós me transmitiram como ninguém a maneira de ser português, sintetizando situações difíceis em frases verdadeiras e significativas, encaminhando uma solução em segundos.

Quando a coisa apertava podia ouvir frases como “raios que te partam!” ou “raios me partam!” que na pronúncia soava como “ralhos que te partam!”.

Estas histórias e frases originais fazem parte da minha vida portuguesa e as guardo como relíquias que representam as saudades e o amor por eles.

Elas surgem em minha mente inesperadamente quando estou envolvido em alguma situação de vida na qual se encaixam.

Algumas destas frases publiquei usando a expressão “como dizia meu avô português” pois me lembram este período da vida que convivi com eles.

Ser Português é expressar sua alma em histórias e frases, de geração em geração, transmitindo os dons de agir, pensar, realizar, amar, sofrer e desenvolver a vida de forma honesta e com muito trabalho.

3 - Ser Português é ter autocrítica, resiliência e coragem

Baseado no que aprendi com meus avós portugueses, percebi que eles enfrentavam a vida utilizando três princípios básicos:

a) Autocrítica

b) Resiliência

c) Coragem

a) Autocrítica

Ser português é ter autocrítica.

“Tu não és melhor do que os outros” como dizia meu avô português.

No lugar de criticar o mundo, critique a si mesmo.

Olhe para dentro de você. Fala demais? Promete mais do que cumpre? Não respeita os diferentes? Não sabe conversar com os filhos? Se julga superior?

Isso não é definitivamente ser português. Não aprendemos isso com nossos avós e pais. Não é da nossa cultura portuguesa.

Ser Português é ter autocrítica. Buscar o melhor para si e para os outros.

b) Resiliência

Ser português e ser resiliente.

“Tenhas paciência meu rapaz” como dizia meu avô português.

Resiliência significa uma pessoa ser flexível, ter a capacidade de superar obstáculos.

Uma forma apropriada de resiliência é considerar o argumento de que as nossas atitudes podem resultar em atos bons ou ruins.

Para entender o resultado dos atos é preciso ser resiliente. Ter muita calma para lidar com os problemas superando as adversidades.

Ninguém é mais resiliente que o português, enfrentando a vida de frente, tendo calma e paciência, com as dificuldades que surgem.

c) Coragem

Se és português sabes o que é ser corajoso.

“Tenhas coragem e monte no cavalo” como dizia meu avô português.

Medo é assustador. Quebra a confiança.

Ele surge inesperadamente em várias etapas da vida.

Idosos que caem sentem medo de andar. Empresários falidos sentem medo em desenvolver novas empresas. Jogadores com contusões crônicas sentem medo de voltar a jogar. Amores perdidos se tornam barreiras para não se apaixonar novamente. Crianças inseguras tem medo de tomar decisões. E vai por aí a fora.


A coragem surge quando enfrentamos o medo.

Quem não tem medo não é uma pessoa normal. O medo nos acompanha por toda a vida. Vai e volta diariamente.

Vindos de Portugal, meus avós, mãe e filhos cruzaram o oceano Atlântico em navios não muito seguros para os padrões de hoje. Eles tiveram coragem, mas devem ter tido momentos de muito medo.

Várias técnicas são utilizadas para eliminar o medo, como mudar comportamento, racionalizar problema, realizar tarefas simples até ganhar confiança para as complexas, respirar, relaxar, concentrar, se apegar a Deus, tentar se livrar da ansiedade, entre outras.

“Se você é português, sabe que para viver e cuidar de sua família, é preciso coragem, confiança em si mesmo, e se livrar do medo o mais rápido que puder. Ser português é ser corajoso.”

4 - Ser Português é saber despertar, colaborar, orientar reinventar-se

Muitas vezes na vida nos encontramos em dificuldades.

Elas surgem em momentos inoportunos, alteram nossa vida.

Ficamos chocados ao perceber o quão frágeis somos.

Algumas situações podem ser resolvidas rapidamente, outras levam anos, e muitas nem sequer serão resolvidas.

Em nossa família tivemos muitas dificuldades, falecimento de minha avó, perda do irmão mais velho com câncer, perda de um jovem sobrinho, derrotas financeiras nos negócios.

É triste passar por isso.

A vida portuguesa oferece forças para superar estes embates.

Aprendi a enfrentar estas situações, e orientar meus filhos com as lições aprendidas.

Aprendi o que me tornava mais português em quatro palavras: Despertar, Colaborar, Orientar e Reinventar-se.

1 - Despertar

Ser português é saber despertar seu instinto vencedor buscando informações, orientações e conhecimentos para novos caminhos.

Deixar para trás mágoas do passado, recomeçar e se transformar em uma pessoa melhor buscando uma vida mais produtiva e feliz.

As lições da vida nos servem de força para despertar e enfrentar as dificuldades.

2 - Colaborar

Colaborar com a família e a comunidade para enfrentar desastres que acontecem na vida, sem tempo e hora marcados.

Na família portuguesa aprendemos a colaborar com os demais para suportar as situações complicadas.

A vida pode nos desorientar, mas ao receber apoio, passamos por momentos complicados e seguimos em frente.

3 - Orientar

Se tens filhos sabes o quanto é preciso saber orientar.

Fornecer ideias e sugestões para que a pessoa se torne mais confiante para mudar o rumo, desenvolver novas metas, buscar novos caminhos na vida.

Meus avós e pais sempre me orientaram quando necessário.

Ser português é saber orientar seus filhos, patrícios e amigos. Ser português é saber receber orientações para encontrar novos caminhos.”

4 - Reinventar-se

Muitas vezes temos de deixar de ser como éramos, e perceber que é preciso melhorar, mudar a forma de como fazer e viver.

Ser português exige de cada de nós mudanças em certos momentos da vida para enfrentarmos as dificuldades.

Ser português é saber rever os valores, repensar o que somos e o que queremos ser, indo de encontro ao inesperado, aquilo que sonhamos, mas ainda não realizamos.

5 - Ser Português é estar presente na vida dos filhos e das novas gerações

Assim como meus pais me casei e tive filhos.

Minha esposa é professora de música e idiomas. Ela tem formação em piano clássico e um BA em literatura portuguesa e inglesa.

Minha filha é jornalista e meu filho economista.

Assim como recebi de meus avós e pais uma educação especial, orientada para princípios e valores obtidos da minha família portuguesa, procurei passar para os meus filhos também estes princípios.

Da mesma forma que meus avós orientaram, meus pais se aproveitaram da convivência com meus filhos, para lhes contar histórias e façanhas de seus bisavós, deles próprios e da vida portuguesa aqui e acolá.

Ser português é ser capaz de manter estas tradições, pelas histórias contadas, experiências vividas e transmitidas.”

Sem isso, acho que deixamos de ser portugueses, deixando fugir das próximas gerações a força humana que trazemos dentro de nós e que nos caracteriza como pessoas especiais.

Desenvolver o amor português junto aos filhos, encaminhá-los a uma vida futura usando estas tradições, me parece ser o correto.

Acredito que meus filhos possam levar adiante estes ensinamentos, e se orgulhar como eu me orgulho de ser português.

Ser português é acima de tudo estar presente na vida de seus filhos e das novas gerações.